Norte-americano Robert Francis Prevost cumpre seu papel institucional e de líder sensato num mundo marcado pela insensatez e por longos conflitos
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O vocabulário da guerra se espelha em situações que se arrastam sem um horizonte de possibilidades para o consenso e o desfecho em favor da paz. A duração da ira que vai dos discursos aos mísseis, ira carregada nos drones, prolonga o lucro da indústria armamentista, a ocupação do poder pelos apologistas da destruição e da morte, e o sofrimento das populações transformadas em alvos por quem faz dos territórios um tablado de jogo perigoso. A raiva e o ressentimento que dominam os impasses da geopolítica internacional ganham versões utilitárias em “guerras comerciais” e polarizações políticas, incorporando a demagogia bélica aos assuntos de governo, contaminando negociações diplomáticas, invadindo até as relações pessoais e o uso rotineiro de redes sociais onde se normalizam as manifestações de ódio por qualquer motivo.
Observador privilegiado de nossa época – certamente atônito, perturbado pela realidade avessa à busca de consensos – o papa Leão XIV tenta fazer a sua parte, exercendo a responsabilidade assumida como pontífice da Igreja Católica, desde quando foi eleito, no ano passado. Em visita a San Marino e à Itália, há poucos dias, o norte-americano Robert Francis Prevost reforçou a pregação contra a guerra, a polarização e a divisão social, convocando os cristãos e toda a humanidade à restauração do diálogo e da amizade em um mundo cada vez mais fragmentado e dividido, apesar de aparentemente hiperconectado. Como se as conexões virtuais estivessem isolando indivíduos, grupos e nações, e o comportamento bélico disseminado servisse como estranha cola de identidade e coesão em prol do dissenso, da discórdia, da separação. Talvez estejam, talvez sirvam.
O papa renovou alerta sobre a cultura que “rearma mentes, palavras e nações”, ou seja, fornece munição simbólica e retórica para que inimigos não desapareçam, e sejam sempre forjados, se necessário. Em San Marino, Leão XIV recordou os fundamentos históricos da república mais antiga no mundo, falando sobre o legado de São Marino e São Leone, exaltando o esforço por “uma sociedade baseada em liberdade, respeito mútuo e comunidade”. Porque na lógica belicista, a liberdade só serve a um dos lados, o respeito precisa ser imposto, e a comunidade se fecha em muros reais ou imaginários para afastar invasores. No ideal republicano, a sociedade é livre em diversidade, o respeito é compartilhado, e a identidade comunitário se nutre de laços sociais e afetivos que vencem ou sublimam divergências.
O princípio cristão da comunhão se agrega à lógica pacifista, como também enfatizou Prevost. O divisionismo e a desconfiança reinantes na atualidade, em várias partes do planeta, fazem prevalecer o desacordo, incensando a legitimidade dos líderes que estimulam a agressividade em todo tipo de conflitos. A difícil defesa do diálogo, na qual o papa insiste bravamente, é um convite a se baixar as armas e a voz, para escutar os outros enquanto se pode ouvir. No Brasil eleitoral, vale a reflexão em plena campanha: que tenhamos mais debates e menos ataques, quem sabe, vendo surgir consensos na direção do bem coletivo, ao invés da perseguição mútua que enxerga no poder um fim em si mesmo.
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Fonte: https://jc.uol.com.br/opiniao/editorial/2026/08/24/dificil-defesa-do-dialogo.html








